Memória selectiva<br>e ilusões futuras

Vasco Cardoso

PSD e CDS decidiram promover um jantar conjunto para assinalar o 1.º aniversário da saída da troika. Deixando de lado todo o cinismo que este acto representou, gostaria de sublinhar o conjunto de esquecimentos que estiveram associados a esta iniciativa.

Desde logo, a tentativa do Governo PSD/CDS procurar branquear que, à saída formal da troika, não correspondeu nenhuma alteração na sua política: os cortes nos salários e pensões não foram repostos; o «enorme aumento de impostos» aplicado em 2013 manteve-se; os serviços públicos encerrados não foram reabertos; as prestações sociais retiradas não foram devolvidas. Mais grave ainda, o Orçamento do Estado aprovado já depois da tal saída, não só aprofundou a política de exploração e empobrecimento, como desenvolveu ainda mais o favorecimento do grande capital, como se tornou visível com a redução do IRC beneficiando os grupos económicos em mais de 500 milhões de euros, no serviço da dívida que aumentou (quase 9000 milhões de euros em juros) ou a política de privatizações que ganhou novo impulso visando tornar definitivo o esbulho do património público.

Não foi apenas o Governo a fazer-se esquecido. Também o PS, que veio publicamente dizer que a «saída da troika» só será concretizada quando este Governo se for embora, se esqueceu de assinalar que só houve troika estrangeira porque houve uma troika nacional que lhe abriu as portas, PSD, CDS, mas também o PS, que no governo de então discutiu, subscreveu e accionou o pacto de agressão contra o povo e o País.

E o que uns e outros – por entre festejos, promessas e acusações inflamadas – procuram esconder é que se preparam para dar continuidade a esta política durante os próximos anos: foi isso que o Governo escreveu no documento que apresentou à União Europeia no âmbito da chamada governação económica; e é isso que está presente no «compromisso para uma década» que o PS apresentou.

Neste tempo de demagogia, mentiras e novas ilusões, há no entanto uma realidade que sobressai e que se impõe face à mistificação: a política da troika é a política de direita (com mão estrangeira). A libertação do país da troika, só será alcançada no dia em que, pela força do povo, se assumir a ruptura com a política de direita.

 



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